JOAQUINA
Por: Marcos Bicudo (Revista inside 1987.)

 

Dizem as rendeiras – habitantes do retiro da lagoa-, que por volta do ano de 1850, havia uma rendeira (como toda a mulher que se preze, naquela região) de nome Joaquina. Ela tinha por habito fazer suas rendas na ultima pedra do costão daquela praia deserta (e sem nome). Então levava para lá suas rendas – ela com o seu vestido de renda -, seus bilros, suas anáguas e ficava lá, horas e horas…

Até que um dia, Joaquina (desligada pela magia do lugar), ficou com suas rendas, o dia todo até a noite chegar. Naturalmente sem se perceber que a maré, a cada minuto, subia. Chegando cada vez mais perto dela.

Aí então veio uma onda, e carregou Joaquina – cheia de rendas, que possibilitavam a flutuação na água – mar adentro, até desaparecer.
Dizem as rendeiras…

Situada a 17 quilômetros do centro de Florianópolis, a Joaquina, sem sombra de dúvidas, é a praia mais famosa da ilha. No meio deste “pedacinho de terra perdido no mar”, está um lugar que exerce um fascínio intenso – e perpétuo (ao que parece) – nas cabeças das pessoas.

Pois desde as curvas e descidas da lagoa, a áurea e a magia do lugar, impulsionam a todos escolher – eleger – aquela enorme, e no entanto minúscula praia, como a cor preferida.

Antagonismos deixados de lado, o fato é que sempre, através dos anos, aquela estreita faixa da Joaquina é freqüentada por todos, conceituando-a como a praia da moda.

Desde o tempo em que sua única construção era o barraco do Maurílio, da época em que os carros estacionavam na praia, contrastando com o visual agressivo, e ainda virgem. Tempo das casas de Valter Vanderley – no canto esquerdo, em cima das pedras – , de Beto Stodiek – aquele que era o caminho da Joaca, ali no retiro da lagoa – que foi construída no século passado.
Fica difícil, pra nós, mencionar todos os fatos, indicar os pioneiros e etc…

Principalmente por que estamos falando de uma das coisas mais sagradas desta terra. De um verdadeiro patrimônio de todos. No entanto, revolver conceitos e reviver situações é a nossa obrigação.

LEMBRANÇAS

Antes, há muito tempo atrás, não havia estrada para a praia da Joaquina. O acesso à praia terminava (ou começava), logo depois da ponte da lagoa. Então se parava o carro e ia-se andando, pela lagoa – inicialmente – e depois dunas adentro.

Histórias de conhecidos meus, que acampavam na Joaca, durante os finais de semana eram freqüentes, pernoitavam e ficavam dois dias lá, sozinhos, num paraíso que ainda daria muito que falar.

Tempo do bar do Chico, o mais famoso bar de Florianópolis de todos os tempos, desde a época em que era apenas um caixotão – ajudado a levantar por freqüentadores assíduos -, sempre acompanhando as mutações do lugar, fazendo parte, sem sombra de dúvidas, do cenário da praia.

O bar ia aumentando, a Joaquina sendo descoberta. Memoriáveis porres, ilustres pessoas – que vaiavam de celebridades à mendigos, de políticos a jogadores de futebol, de mulheres a crianças, todos uníssonos ao proclamar aquele bar como parte da praia.

Mas o Chico se foi, e a Joaquina não…
Tempo em que o único hotel era o Joaquina Beach, de propriedade de Manoel Menezes.

Praia que foi responsável pelo aparecimento de muita gente, de muitas modas e principalmente, de um esporte solitário e fascinante, marginalizado e idolatrado; portanto dualísticamente perfeito.

O APARECIMENTO

Segundo André Lenzi, um dos mais antigos – da nova geração – freqüentadores da Joaca, o primeiro surfista que ele viu surfar foi o Celso Ramos, sozinho lá dentro do mar, num dia de ondas grandes.

Ele juntamente com Betinho Rodrigues, Minho Ramos, Geraldo Correa, Eduardo Collaço, Ricardo schoreder e outros, foram os precursores deste esporte aqui em Florianópolis.

Época em que se começava a entender a necessidade de se aproveitar melhor as ondas.
Em 1974, mais ou menos no meio do ano, aconteceu na Joaquina o primeiro campeonato de surf, o PIU SURFBOARDS – que levava o nome de um carioca que arrepiava nas ondas do sul, naquela época, o Paulinho Piu.

Para se ter Idea de como o surf não atraia ninguém, o evento rolou no meio da praia, só com os competidores (uns quinze) e os juízes e organizadores.

No canto esquerdo, centenas de pessoas nem ligavam para o campeonato. Ricardo schoreder foi o campeão na sênior, ficando para ciso o primeiro lugar na júnior.

Dois anos depois, em 1976, acontecia o primeiro festival de surf, aqui em Florianópolis, com centenas de pessoas e um enorme numero de surfistas (até de outros estados) invadindo a Joaquina, era o I ROCK, SURF E BROTOS, organizado por Cacau Menezes.

Além dos shows que rolavam depois do campeonato, dos novos nomes na água, este evento marcou uma época na história da praia.

Sim, na entrega de prêmios, com a Joaca lotada e a presença de toda a imprensa local, Cacau Menezes fez o prefeito da capital, Esperidião Amim (ainda muito barbudo e cabeludo) prometer, na frente de todos, a pavimentação da estrada da Joaca. O negócio estava começando a esquentar…

SURGE

Logo após a realização do I Rock, Surf e Brotos, que teve como campeão, na categoria sênior, o Joinvillese Caxito, surgia uma nova geração de surfistas da Joaquina, e nascia forte, tanto que o vencedor, foi Marcelo Pereira Oliveira, o Bichinho.

Nomes como, Rubens Pereira, o Bita, Flávio Boabaid, Alexandre Fontes, Ricardo Pereira, Ronaldo Lobato, o próprio Bichinho e outros, juntavam-se as expressões de porte como Ciso, Tolo, gigante, Toro, Gênio, etc…E foram surgindo mais nomes eclodindo mais campeonatos.

EVOLUÇÃO

A partir de 1978, os campeonatos de surf tornaram-se constantes na Joaca. Eventos locais, como o primaverão, vencido por Bita e o Diretur, vencido por Flávio Boabaid, e interestaduais como o torneio RBS – Sulbrasileiro de surf, organizado por Sérgio Entres e Roberto Lima, este um garoto que ainda daria muito que falar na história da praia.
Depois deste Sulbrasileiro – que foi em 79 -, outro campeonato Sulbrasileiro – agora em duplas – movimentos a praia da Joaquina.

Quando falamos em movimentou é para o leitor ter uma idea de um grande acumulo de gente mesmo. Pois naquela – com menos turistas – o Sábado e o Domingo também eram muito cheios.

Neste campeonato, além de marcar o início de uma nova década, revelaram-se para Santa Catarina, gratas surpresas, como por exemplo, o surfista de Balneário Camburiú, Bilo que quase ganho o campeonato sozinho, pois seu companheiro de dupla Neo, só surfava bem em Caburiú, na final deu quem? Caxito e Gugi, é claro, os dois ganharam tudo nessa época.

Também foi neste ano, 1980, que foi criada a Associação Catarinense de Surf, com três etapas pelas praias de Santa Catarina.

A primeira foi realizada na Joaquina e quem venceu foi Roberto Lima. A importância da etapa de Florianópolis, sempre na Joaca, estava estampada na visão dos organizadores que sempre, a partir deste ano, começavam e terminavam o circuito na Joaca. época dos campeonatos de Edson Costa, o popular Dedinho, que com seus Primaverões e Floripões, ajudaram e muito no desenvolvimento do Surf Catarinense.

Ficou para 1982, o campeonato Catarinense de estreantes, evento que se realizara pela ultima vez em 1977, quando foi vencido por Álvaro Pereira, irmão do Bichinho.

Com um dos melhores mares de campeonato, o Catarinense de estreantes foi vencido por Marcelo César, que juntamente que juntamente com seu Eduardo que ficou em terceiro.
E dá-lhe campeonatos, nomes, revelações.

Como o 3º Atlântida FM de Surf, num mar de 8′ pés vencido pelo Florianópolitano, Zeno Brito, apontado por todos como “o Rei da Joaca” aquele que há tantos anos pega, e bem todos os dias bons na Joaca.

Muita gente desinformada pode se perguntar porque a Joaquina é sempre o palco dos grandes campeonatos de surf, já que a ilha tem mais de 20 praias surfáveis.

Flávio Boabaid, organizador de eventos e dono da Máster Promoções explica: “A Joaquina é uma das melhores do Brasil para se fazer campeonatos. As ondas estão sempre lá, sempre exibindo uma constância impressionante”.

E com todos esses elementos (gente para competir, gente para organizar e, o que cada vez mais acontecia, gente para apreciar), a engrenagem estava montada…

OS RACIONAIS

A partir de 1982 o surf Brasileiro ficou, praticamente, sem campeonatos representativos, eventos importantes e determinantes no cenário nacional.

Com o término do Waimea 5000 – realizado no Rio de Janeiro -, e que fazia parte do ranking mundial -, a única opção dos surfistas era o Campeonato Brasileiro em Ubatuba, em Julho.

Assim sendo, Flávio Boabaid, Roberto Perdigão e Arnaldo Spyder, resolveram fazer um campeonato mundial aqui no sul, na praia da Joaquina.

Naquela época, a Idea de um campeonato nacional em Florianópolis, não convenceu muito os surfistas de outros estados; desacreditados que estava com o surf Brasileiro.

Mas o I Olympikus saiu – e foi um sucesso. A Joaquina – com muita gente presenciou seu primeiro grande campeonato nacional, com surfistas de todo o país, o mais importante, com toda a imprensa divulgando o nome de uma praia que já começava a ficar conhecida e procurada além das fronteiras Catarinenses.

O vencedor do campeonato foi Luís Neguinho, um santista recém-saído do exército, e que impressionou a todos os presentes com um surf radicalíssimo.

O melhor catarinense classificado foi o Davisinho, ficando em terceiro lugar.

No ano seguinte, em 1983, os surfistas que voltaram a Joaca para correr o II Olympikus, já encontraram uma praia diferente.

Se o palanque continuava minúsculo, as novas construções como o Cris hotel, o aumento considerável de concorrentes no campeonato e as dificuldades de se encontrar uma casa para alugar nas proximidades, não deixavam dúvidas, o paraíso começava a ser invadido.

Dentro d’água grandes revelações, como por exemplo, o carioca Dada Figeredo que, com um surf muito solto e com linhas moderníssimas, tornava-se, a medida que a competição ia chegando ao seu final, um dos favoritos ao título, porém Dada esbarrou em Bita, um surfista local da Joaquina, que estraçalhou nas pequenas esquerdas que rolavam entre a pedra careca e o costão.

E o campeonato terminou. Muita gente já não voltava mais para os seus estados, ficavam aqui, curtindo um pouco daquele mágico canto esquerdo, que apesar de tudo, continuava lá, inalterado.

INVADIDA

1985, eis que a Olympikus saiu do mercado do surf, ou melhor, do mercado em geral, e anuncia que não ai patrocinar mais nenhum campeonato.

Momentaneamente, na cabeça dos organizadores, a Idea do desmoronamento de um projeto que já havia dado certo, transformar a Joaquina, no maior palco do surf brasileiro pesou na cabeça, mas por pouco tempo.

Pois a OP – Ocean Pacific – resolveu bancar o evento, assegurando-lhe todos os seus prêmios, melhorando-os e cobrindo o campeonato.

Melhor ainda para o surf brasileiro, que assim via, no conhecido mês de Janeiro, um festival nunca antes visto aqui no Brasil.

Redundâncias a parte, o OP PRO, transformou a já famosa Joaca, num verdadeiro pesadelo.

Aonde para se chegar na praia, depois das nove e pouco da manhã tinha que esperar numa enorme fila, que vinha desde a lagoa (não era lá que terminava o acesso à Joaquina?).

Fora isto, o cada vez maior apoio do governo, interessado num esporte que já trazia bons frutos, não só para Florianópolis, mas também ao estado.

Apoio este que se traduziu em presença, literal, como as constantes visitas, durante o campeonato, do Governador de Santa Catarina e do Prefeito de Florianópolis.

No surf, mais uma vitória do Santista Picuruta Salazar, que assim firmava-se como o maior surfista brasileiro da época.

Com cada vez maior numero de revistas e jornais especializados, bem como o interesse de todas as publicações do Brasil – Veja, Jornal do Brasil, Folha de São Paulo, manchete e etc…- o OP PRO tornou-se marca registrada do verão Catarinense.

No ano seguinte, todos esperavam o OP PRO, com igual ansiedade.

Os surfistas, pelos prêmios milionários e pelo reconhecimento óbvio do melhor surfista Brasileiro.

Para os turistas a certeza de verem muita gente bonita, com seus fios dentais e suas pranchas, coadjuvando um cenário almejado por todos: a praia da moda.

Com quase 800 inscritos ( o maior campeonato em termos de atletas do mundo), o II OP PRO teve, pela primeira vez, um campeão Catarinense, muito acostumado com aquelas pequenas ondas que rolavam: Davi Husadel, 23 anos, natural de Balneário Camboriú, há 6 anos residindo em Florianópolis, ganhava, além de 30 milhões de cruzeiros, uma passagem para a Austrália.

Na categoria amador, também tivemos um catarinense brilhando: Teco Padaratz, com apenas 15 anos, ficou com o vice campeonato.

Mas é claro, depois do campeonato a Joaquina continuava a todo o vapor, com lojas e bares proliferando, com o estacionamento, começando a invadir as dunas, aumentando cada vez mais para os lados.

Para os habituais freqüentadores, moradores da ilha ou não, a eminência do pesadelo do “não dá mais pra ir à Joaquina no verão” havia se consumado, como consolo ainda sobrava o resto do ano, no inverno…

THE WORLD

Acostumados a presenciar, no mês de Setembro, uma Joaquina vazia, com no máximo, uns cinqüenta gatos pingados na praia, os Florianópolitanos simplesmente não acreditavam no que viam, durante a semana muita gente e no final de semana…

Era o HANG LOOSE PRO CONTEST, etapa válida para o circuito mundial do qual o Brasil esteve ausente por 5 anos.

Verdadeiros heróis deste esporte, alguns nunca tinham pisado em terras Brasileiras, a emoção de velos surfar na Joaca não cabe aqui, em sumárias linhas.

Mitos como: Shaun Tonsom, Mark Richards, cheyne Horan, Wayne Rabbit, Mark Occhilupo, Barton Lynch, Tom Carol, Brad Gerlach e outros, transformaram um antigo sonho, de muitos, numa alegre realidade.

E a Joaquina, como que se quisesse recepcionar bem os convidados, tão longamente esperados, se mostrou impecável.

Com um mar alucinante (ondas de 8′ pés), um tempo incrivelmente aberto e quente, e um público ávido, o campeonato foi um sucesso mais do que esperado.

Realmente, apesar das previsões dos organizadores, o que se viu, principalmente no final de semana, foi uma coisa de louco, quase 20 mil pessoas se acotovelaram na praia e outras tantas tentavam chegar na Joaquina, tentavam, pois o transito, o engarrafamento não deixava, para se ter uma idéia, o governador do estado, Esperidião Amim, teve que chegar de Helicóptero!!! Fora o trânsito no final do campeonato, que fez com que os carros só conseguissem sair da Joaca às 9 da noite, uma praia que se transformou num caos, sem comida e sem bebida.

Na água uma surpresa, o Australiano Dave Macaulay eliminou o brasileiro Sérgio Noronha, que brilhou no Hang Loose, Hans Hedemann, e na final o australiano Mark Occhilupo, ficando com o primeiro lugar.